08/09/2026 · Crônicas do Diniz
O homem que conversava com o relógio
Por Paulo Sergio Coêlho Diniz ·

O homem que conversava com o relógio
Ninguém sabe ao certo quando o Senhor Aurélio começou a falar com o relógio da sala. A vizinhança percebeu primeiro os murmúrios baixos, do outro lado da janela, sempre no fim da tarde. Depois vieram as frases inteiras. E, por fim, um dia, dona Zuleide jura ter ouvido, claramente, um pedido de desculpas.
— Desculpe por hoje de manhã — dizia ele ao relógio de pêndulo, herança do avô. — Fiquei parado olhando a chuva por mais tempo do que devia.
O relógio, evidentemente, não respondia. Mas o Senhor Aurélio parecia ouvir alguma coisa, porque balançava a cabeça, concordando, como quem escuta uma bronca justa.
Comecei a visitá-lo depois de ouvir a história pela terceira vez, contada por pessoas diferentes com o mesmo espanto. Encontrei um homem tranquilo, de olhos claros e voz mansa, que me recebeu como se estivesse esperando a visita havia semanas.
— As pessoas acham estranho — disse ele, servindo café — porque acham que o tempo é uma coisa que a gente gasta, como dinheiro. Eu prefiro pensar que é uma visita. E toda visita merece ser tratada com respeito.
Perguntei se ele achava mesmo que o relógio o ouvia.
— Não sei — respondeu, encolhendo os ombros. — Mas sei que eu preciso ouvir a mim mesmo, e falar com ele é a única forma que encontrei de fazer isso em voz alta.
Fiquei pensando nisso durante dias. Vivemos brigando com o relógio, tratando-o como inimigo — algo que corre rápido demais quando queremos que pare, e devagar demais quando queremos que passe. O Senhor Aurélio tinha simplesmente decidido tratá-lo como se fosse gente. E, ao fazer isso, parou de correr atrás dele.
Talvez todos devêssemos, de vez em quando, pedir desculpas ao relógio. Não porque ele precise ouvir, mas porque nós precisamos dizer. Desculpe pela pressa. Desculpe pela distração. Desculpe por ter passado batido por um dia inteiro sem notar que ele estava ali, generosamente, nos dando o único bem que realmente não se pode recuperar depois de perdido.